SÍNDROME INFLAMATÓRIA MULTISISTÊMICA GRAVE

Autores: Feldstein LR, Rose EB, Horwitz SM, Collins JP, Newhams MM, Son MBF, Newburger JW, Kleinman LC, Heidemann SM, Martin AA, Singh AR, Li S, Tarquinio KM, Jaggi P, Oster ME, Zackai SP, Gillen J, Ratner AJ, Walsh RF, Fitzgerald JC, Keenaghan MA, Alharash H, Doymaz S, Clouser KN, Giuliano JS Jr, Gupta A, Parker RM, Maddux AB, Havalad V, Ramsingh S, Bukulmez H, Bradford TT, Smith LS, Tenforde MW, Carroll CL, Riggs BJ, Gertz SJ, Daube A, Lansell A, Coronado Munoz A, Hobbs CV, Marohn KL, Halasa NB, Patel MM, Randolph AG; Overcoming COVID-19 Investigators; CDC COVID-19 Response Team

Fonte: N Engl J Med 2020;383:334-46

Introdução: A pandemia do coronavírus 2019 (Covid-19) causou doenças catastróficas em todo o mundo, embora as crianças tenham sido relativamente poupadas. O envolvimento pulmonar grave com insuficiência respiratória aguda é a complicação mais comum da Covid-19 em adultos, mas muitos apresentam complicações em vários órgãos, incluindo o coração. No final de abril de 2020, médicos no Reino Unido relataram um grupo de oito crianças previamente saudáveis apresentando choque cardiovascular, febre e hiperinflamação. Em 14 de maio de 2020, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) emitiram um comunicado nacional de saúde para relatar os casos que atendiam aos critérios de síndrome inflamatória multissistêmica em crianças (MIS-C). Compreender a epidemiologia e o curso clínico da MIS-C em crianças e sua associação temporal com a doença coronavírus 2019 (Covid-19) é importante, dadas as implicações clínicas e de saúde pública da síndrome.

Método: Realizado vigilância direcionada para MIS-C de 15 de março a 20 de maio de 2020, em centros de saúde pediátrica nos Estados Unidos. A definição de casos incluiu seis critérios: doença grave que leva à hospitalização, idade inferior a 21 anos, febre que durou pelo menos 24 horas, evidência laboratorial de inflamação, envolvimento de órgãos multissistêmicos e evidência de infecção com síndrome respiratória aguda grave coronavírus 2 (SARS-CoV-2) com base na reação em cadeia da polimerase por transcriptase reversa (RT-PCR), teste de anticorpos ou exposição a pessoas com Covid-19 no mês anterior. Os médicos abstraíram os dados em formulários padronizados.

Resultados: Relatado casos sobre 186 pacientes com MIS-C em 26 estados. A idade média foi de 8,3 anos, 115 pacientes (62%) eram do sexo masculino, 135 (73%) tinham sido anteriormente saudáveis, 131 (70%) foram positivos para SARS-CoV-2 por RT-PCR ou teste de anticorpos e 164 ( 88%) foram hospitalizados após 16 de abril de 2020. O envolvimento do sistema de órgãos incluiu o sistema gastrointestinal em 171 pacientes (92%), cardiovascular em 149 (80%), hematológico em 142 (76%), mucocutâneo em 137 (74%) e respiratório em 131 (70%). A duração mediana da hospitalização foi de 7 dias (intervalo interquartil, 4 a 10); 148 pacientes (80%) receberam cuidados intensivos, 37 (20%) receberam ventilação mecânica, 90 (48%) receberam suporte vasoativo e 4 (2%) morreram. Aneurismas da artéria coronária (escores z ≥2,5) foram documentados em 15 pacientes (8%), e características semelhantes à doença de Kawasaki foram documentadas em 74 (40%). A maioria dos pacientes (171 [92%]) teve elevações em pelo menos quatro biomarcadores indicando inflamação. O uso de terapias imunomoduladoras foi comum: imunoglobulina intravenosa foi usada em 144 (77%), glicocorticóides em 91 (49%) e inibidores de interleucina-6 ou 1RA em 38 (20%).

Conclusão: A síndrome inflamatória multissistêmica em crianças associada ao SARS-CoV-2 levou a doenças graves e com risco de vida em crianças e adolescentes previamente saudáveis.

Comentário: Esse estudo mostra o que temos visto em nosso hospital, crianças, geralmente crianças na idade escolar ou adolescentes, com quadro de envolvimento de múltiplos órgãos, principalmente o gastrointestinal e cardiovascular, acompanhado de aumento de febre e marcadores inflamatórios. Alguns pacientes apresentam a doença semelhante à de Kawasaki e evolução para aneurisma de artéria coronária. A maioria se recupera do quadro. No momento contabilizamos 20 casos e nenhum óbito. Apesar de rara, a MIS-C deve ser lembrada na rotina de atendimentos do pediatra, principalmente àqueles que trabalham nos serviços de urgência e emergência. 

 

Dra. Ludmila Houara Machado